Os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Lula

FHC sabe que Lula se perverteu no poder. Não duvida que Lula comandava o esquema de corrupção que assaltou os cofres públicos. Lula, o carismático líder metalúrgico, virou chefe de quadrilha. FHC está certo disso.

Mesmo assim, FHC continua gentil com ele. Desde lá atrás, quando tratado com deferência ao receber a faixa presidencial, Lula lhe apunhalou pelas costas, dizendo que recebera uma “herança maldita”, FHC tem razões de sobra para denegrir Lula. Mas se contém.

Tampouco FHC esculacha o PT. O sociólogo FHC gosta de respeitar as instituições. Ele prefere criticar o lulopetismo, termo que criou para selecionar o joio do trigo. O problema não reside propriamente nos partidos, nem na esquerda, nem tampouco em pessoas sacanas. A grande sem-vergonhice do lulopetismo é a corrupção sistêmica, a organização paraestatal da sem-vergonhice política.

FHC também sempre aliviou para Dilma. Perto de Lula, Dilma é uma santa. Apostou até, inicialmente, que Dilma, reeleita, pudesse se distanciar da fera. Fez seguidos acenos, como se quisesse dizer “conte conosco para se livrar do seu padrinho”. Dilma, porém, estava presa na rede maligna montada pelos larápios que lhe dividiam o governo. Não teve coragem de romper com o crime. Dele participou.

FHC resistiu por bom tempo ao impeachment. Sabia que apear Dilma do Planalto significaria dar munição política a Lula. Mas o país estava sofrendo com a recessão. A dinâmica do processo, assoprada pelas manifestações de rua, sobrepujou sua posição. Saiu Dilma, entrou Michel Temer. FHC nunca se entusiasmou com esse PMDB. Conhece-o muito bem.

FHC sabia que Dilma poderia destruir Lula. Sim, porque foi sua incompetência e inabilidade que levaram à ruína do esquema lulopetista. Lula, notoriamente, temia a teimosia de Dilma. Por isso pretendia, ele próprio, retornar ao poder em 2014. Mas Dilma bateu o pé. Reeleita, eriçou o topete e tratou mal o Congresso Nacional. Perdeu sustentação política. Caiu. Enterrou Lula no atoleiro.

Afora os defeitos pessoais, Dilma pagou caro seu equívoco nacionalista. Cabeça retrógrada, criada no berço brizolista, Dilma arrebentou as contas públicas em nome de uma ilusão ideológica atrasada 30 anos. Quebrou o país, gerando uma crise sem precedentes. Foi Dilma, a criatura, quem ferrou Lula, seu criador. FHC jogou certo.

Agora, FHC sabe que atacar Lula seria como chutar cachorro morto. Provocaria seus apoiadores, não aquela militância sindicalista, mas sim pessoas humildes, gente sofrida, para quem todos os políticos são iguais, e ladrões. FHC prefere apostar na Justiça.

FHC pouco se preocupa com Lula. Devolve-lhe as agressões com o desprezo da inteligência. Cada vez que é aplaudido ao entrar num restaurante, FHC se vinga de Lula, que vive escondido nos porões da vergonha. Deixemos Lula no seu canto, entregue à sua própria consciência.

Construir um caminho de saída. Nisso, no que virá, gira a cabeça de FHC. Atiçar o radicalismo político não favorece encontrar soluções para o futuro do Brasil. Precisamos escapar da polarização, abrir portas de entendimento, cultuar a benevolência, desintoxicar a política para rejuvenescer a Nação. Assim pensa, e opera, FHC. Concordo.

Xico Graziano

Xico Graziano, 65, é engenheiro agrônomo e doutor em Administração. Foi deputado federal pelo PSDB e integrou o governo de São Paulo. É professor de MBA da FGV e sócio-diretor da e-PoliticsGraziano. O articulista escreve para o Poder360 semanalmente, às quartas-feiras.

Crédito: 3 Poderes

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