Efeito Werther

Na violência doméstica, dadas as devidas proporções, esse efeito é visível

O efeito Werther é conceituado como o “contágio” dos casos de suicídios anunciados midiaticamente. A denominação aparece com a obra “Os sofrimentos do jovem Werther”, do escritor alemão Wolfgang Von Goethe. O livro foi muito lido à época, idos de 1774, onde o personagem principal suicida por “amor”. Cerca de 40 jovens, após a leitura, se mataram da mesma forma. Na violência doméstica, dadas as devidas proporções, esse efeito também é visível.

Rememoro caso da jovem advogada T.S., que foi espancada, torturada e atirada pelo marido do quarto andar de um prédio no município de Guarapuava em 22 de julho de 2018. O delito foi horrível, tendo a câmera de segurança filmado, e disponibilizado às imagens posteriormente. Pois bem. Uma semana após a ocorrência desse delito, outra mulher foi atirada do terceiro andar pelo companheiro. Outras mulheres passaram a relatar que sofreram ameaças de serem arremessadas, também, pelos ex-companheiros.

O efeito cascata em algumas situações fica totalmente visível, piorando sobremaneira as violências domésticas a que as mulheres se sujeitam. O padrão passa à repetição nefasta, piorando as diversas violências a que mulheres ficam exposta.

O impacto em mentes voltadas para a violência, e mais, na violência contra as mulheres, mostra que não falar de maneira sensacionalista é melhor

O jornalismo tem papel deveras importante na divulgação de fatos descritos como delitos de violência doméstica e familiar. É preciso que as manchetes das notícias sejam preparadas para impactar o crime de violência doméstica e familiar mostrando a realidade, a fim trabalhar a prevenção.

Quanto ao Efeito Werther, a Organização Mundial de Saúde preparou documento com diretrizes importantes para narrar os episódios. Na violência doméstica e familiar também é premente que critérios sejam seguidos, no afã de se evitar citado resultado. Evitar detalhes ou omitir elementos que venham a despertar a sanha do agressor é uma forma de impedimento em desencadear processo imitativo.

O impacto em mentes voltadas para a violência, e mais, na violência contra as mulheres, mostra que não falar de maneira sensacionalista é melhor. A sensibilidade no trato é o melhor caminho. Não trazer fotografias para as matérias jornalísticas, ou vídeos da vítima também se perfaz em forma preventiva de possível repetição.

É importante mostrar o arrependimento do agressor e a pena para o delito, por exemplo. Em momento algum, um homem que agrediu ou ceifou a vida de sua companheira pode ser tratado como alguém que agiu por “amor”, aliás, muito pelo contrário.

A matéria pode trazer incentivos aos agressores de que a história trágica poderia ter ocorrido de modo diverso, com cada qual levando a vida tranquilamente, sem que alguém tivesse cometido assassinato contra outrem. Falar que as separações acontecem todos os dias, minimiza a vontade daquele que não se conforma com o término do relacionamento, levando-se em consideração que esse é o maior “motivo” dos homens para cometer feminicídio contra as companheiras.

Expressar corretamente as emoções pode diminuir problemas que, por ora, são de difícil solução.

 

ROSANA LEITE ANTUNES DE BARROS é defensora pública estadual.

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