Brasileiro é contratado pelo Spotify após simular entrevista de emprego

O desenvolvedor David Lino de Souza preenchia todos os requisitos exigidos pelo Spotify quando recebeu uma oferta de emprego para trabalhar na sede da empresa, em Estocolmo, no fim de 2013.

Além da graduação em ciência da computação pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), o paraibano também fez um mestrado focado na área de sistemas distribuídos, um ramo com demanda crescente no mercado. Tanto que, depois de recusar a oferta do Spotify em detrimento de outra, ele foi aceito novamente para a vaga do serviço de streaming de música, quando alterou os planos e decidiu se mudar para a Suécia.

David Lino, de 29 anos, é formado em ciência da computação pela UFCG, na Paraíba, e hoje trabalha no Spotify em Estocolmo, na Suécia

Segundo Lino, uma das estratégias que garantiu seu êxito no processo seletivo foi reunir um grupo com mais cinco colegas da área para simular entrevistas de emprego em inglês, e ajudar uns aos outros na preparação.

Dicas de David Lino para trabalhar no exterior:

Focar no aprendizado do inglês desde cedo, especialmente para pessoas que querem seguir carreira na área de tecnologia
Participar de comunidades online e projetos internacionais de programação em código aberto para ganhar experiência e estabelecer contatos com pessoas de outros países, que podem dar recomendação para futuras vagas
Manter um portifólio online com o código dos projetos já realizados disponíveis
Pesquisar e treinar para as etapas dos processos seletivos para saber o que os empregadores esperam dos candidatos

Fora dos grandes centros

Sair de sua cidade natal para trabalhar era dado como pressuposto por David quando ele escolheu uma carreira em ciência da computação. “Infelizmente, o mercado para desenvolvimento em Campina Grande não é muito bom”, disse ele, em entrevista ao G1. “Então, uma coisa era certa: eu ia ter que sair de lá para trabalhar em algum canto.”

Por isso, quando terminou a gradução, em 2011, ele emendou um mestrado seis meses depois, e se formou em 2013. Para se especializar, Lino escolheu estudar justamente a área na qual trabalha no Spotify: os sistemas distribuídos.

Aos leigos, ele explica que, atualmente, muitos serviços como o Spotify atuam numa escala com milhões de usuários e por isso, a computação é feita por meio de vários sistemas que se interligam – por exemplo, um para a autenticação do usuário e outro para o serviço de pagamento. A função dele, então, é cuidar da comunicação entre todos eles.

Ofertas recusadas

A capacitação do paraibano lhe rendeu ofertas de emprego em São Paulo, Recife e Porto Alegre, mas ele recusou todas. “Nenhuma oferta era o que eu estava procurando”, conta ele, que acabou optando por um trabalho remoto para uma empresa nos Estados Unidos, enquanto se preparava para o emprego dos sonhos.

Todas as semanas, ele se juntava ao grupo de colegas para que um entrevistasse o outro, sempre em inglês, para que, na hora H, a falta de confiança no idioma não fosse um empecilho.

Ele também começou a enviar seu currículo pelo site de diversas empresas e, como conhecia um brasileiro, também formado pela UFCG, trabalhando no Spotify, conseguiu ser indicado para uma vaga lá. Lino passou por várias etapas do processo: na primeira, precisou escrever um código para demonstrar seus conhecimentos. Depois, passou por uma entrevista “cultural”, onde os empregadores tentam conhecer mais sobre a pessoa. A fase seguinte foi de entrevistas técnicas.

Por fim, ele chegou a ir até a Suécia, com tudo pago pelo Spotify, para fazer uma série de entrevistas presenciais em novembro de 2013. No início do ano seguinte, foi convidado a ocupar a vaga.

Porém, ele decidiu aceitar outro emprego, nos Estados Unidos, depois de enviar seu currículo pela internet, passar pelo contato com o recrutador e três entrevistas. Mas como a janela de tempo para dar entrada no visto de trabalho para os Estados Unidos já havia acabado, meses depois Lino decidiu buscar o Spotify novamente. Como a vaga ainda estava aberta, ele foi contratado e iniciou o processo de obtenção do visto.

Expansão

Ele vive em Estocolmo com a esposa brasileira desde setembro de 2014, que, como tem graduação e fala inglês, logo conseguiu um emprego como gerente de projetos de software em outra empresa.

Nesse meio tempo, ele acompanhou o processo de expansão do serviço de streaming de música e podcasts, que em setembro tinha 191 milhões de usuários ativos (sendo 83 milhões deles usuários pagantes) em 78 mercados diferentes.

O desenvolvedor diz, inclusive, que ainda hoje a vaga para um perfil como o dele ainda deve estar aberta, devido à alta demanda.

Vida na Suécia

O desafio profissional de trabalhar em uma empresa desse porte e abrangência mundial não ficou eclipsado pela tarefa de se adaptar ao clima e à cultura suecos. “De onde venho acho que nunca ficou abaixo dos 10 graus, e aqui no verão não passa de 25 graus”, compara o campinense.

O clima também afeta diretamente o número de horas de sol. Em dezembro, ele diz que o dia nasce por volta das 8h30 e o sol se põe às 15h30. Mas, no verão, ele nasce às 3h e só desaparece no horizonte à meia-noite. “O dia todo em junho está claro.”

Para ajudar na adaptação, o Spotify oferece aos funcionários aulas gratuitas de sueco e uma consultoria para fazer o imposto de renda pela primeira vez – um dos únicos serviços ou interações governamentais, segundo Lino, que não têm opção em inglês.

A língua, porém, ainda é difícil, diz ele. “Eu consigo ir ao restaurante e falar sueco com o garçom, se ele não fugir muito do script.”

Prós e contras

O casal ainda não tem planos de sair da Suécia, e o desenvolvedor pesa os prós e contras para decidir ficar por lá. A maior desvantagem é a distância da família. “A gente vai uma vez por ano”, diz ele, que passou o Natal longe dos parentes. “O Natal em geral é o [período] mais caro. Esse ano a gente foi na Páscoa”, contou Lino.

Quando pisa em território brasileiro, ele diz que uma das coisas que mais gosta de fazer é comer churrasco, já que, na Suécia, a carna é cara e o casal costuma comer mais peixe, porco e frango.

Apesar da saudade da família e da cultura do Brasil, ambos aproveitam a vida “boa e tranquila” que levam na Escandinávia, onde um dos maiores benefícios é viver em uma sociedade onde um caixa de supermercado e um médico não têm uma diferença tão gritante no salário. Já ao racismo a sociedade sueca não está imune, conta Lino, apesar de ele classificar o problema como “isolado”.

Lino afirma que, se tivesse ficado no Brasil, não teria tido a oportunidade de atuar na área que queria seguir na carreira.

Ele também acredita que não teria a mesma qualidade de vida se tivesse ficado no país. “O equilíbrio entre trabalho e vida fora do trabalho é bem difícil de encontrar no Brasil, independentemente de onde você mora.”

Por: G1 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *